








Apresentação
Quando estreou na Argentina em meados da década de 2000, a peça de Sergio Lobo chamou a atenção da crítica pelo registro “neogrotesco”. A comédia extrai efeito caricatural ao retratar uma família disfuncional num país ainda combalido pela grave crise econômica de 2001. A Companhia Hecatombe (2005) aposta na universalidade contemporânea daquela metáfora absurda e intenta mostrar como a arte do teatro pode destruir a realidade imediata para transcendê-la. Em cena, “a família fracasso”, sentencia a filha de 35 anos aparentemente incomodada com as coisas fora do lugar. Ao seu lado, o irmão, tratado por “Gordo”, tem medo de ir ao banheiro sozinho e está tateando a sua sexualidade. O pai ex-açougueiro, tem a mesma idade da filha – e é questionado por isso, em vão -, passa o tempo fumando maconha, vidrado em futebol ou brandindo um facão.
Já a matriarca, a quarta cabeça desse enredo em terras de Evita, de Avós e de Mães da Praça de Maio, insinua-se com mão de ferro, arma em punho, metida em imponente vestido vermelho. Aos poucos o público vai percebendo que essas deformações são mais voláteis e irônicas do que parecem. A ambiguidade reina absoluta e dá margem a surpresas. A ação se concentra na mesa de jantar. Sentados ou caminhando em torno dela, essas figuras sarcásticas e cruéis embaralham os papéis familiares. A mãe rivaliza com a juventude da filha. Esta só interage com perversidade. O pai não arreda pé das nuvens, sempre ausente. E o caçula fica perdido nessa convivência predatória de muitas perguntas sem respostas. Para tanta falta de comunicação, Orégano ironiza a busca de sentidos em tipos que chegam a discutir parâmetros do que é sujeito, objeto, emissão e recepção. Para coroar um dos únicos pontos de convergência desse quarteto seria a operação de uma rádio comunitária – eles até gostam de cantar em coro -, mas a iniciativa tampouco vinga. O diretor Homero Kaneko centra o olhar do expectador numa encenação ao redor da mesa de jantar posta no meio do palco. A casa é um ambiente sob penumbra, cuja parede cenográfica de fundo é forrada por imagens radiográficas de várias partes do corpo. Fraturas. Ganhou PROAC para circulação no Estado de São Paulo no ano de 2012. Ficou em cartaz de 2009 a 2013.
Sinopse
Uma família imersa no mais profundo fracasso. Uma mãe que não suporta a passagem do tempo e que concorre constantemente com sua filha. Ela esconde um segredo do qual nem ela mesma se lembra sobre a real identidade de cada um em sua casa. Uma filha em busca de responder perguntas sem respostas. O conflito de um filho sobre sua sexualidade que se torna divertido pela ingenuidade que o caracteriza. E um pai cuja ausência é mais forte que a presença.
75 minutos
Classificação: 16 anos
Ficha Técnica
Dramaturgia: Sérgio Lobo / Tradução: André Lima / Direção: Homero Kaneko / Elenco: Bruno Cavalcanti, Clarissa Maria, Jaqueline Brambilla, André Almeida e Alexandre Manchini Jr. / Iluminação: Luiz Fernando Lopes / Maquiagem: Márcio Merighi / Cenografia e Figurino: Companhia Hecatombe / Operação de som: Marina Pitombeira

